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  • Nelly Bodely

Como lidar com o stress?

O stress faz parte da vida e é saudável e desejável que em situações de demanda nos tornemos alertas e preparados para agir de acordo a proteger nosso bem estar e sobrevivência. O stress é a manifestação do estado que entramos diante de situações ameaçadoras - o estado ligado ao nosso mecanismo inato de defesa. Neste estado nos tornamos fisiologicamente preparados para lutar, fugir ou nos dissociar um pouco - para não sentirmos tanto e termos meios de melhor proteger nós mesmos. Herdamos de nossa linhagem mamífera este mecanismo de defesa de sobrevivência, que, tem como seu processo, nos orientar e nos preparar para melhor lidar (dentro do que conhecemos individualmente) com qualquer situação que experimentamos como insegura, perigosa ou de sobrecarga. O que não é saudável ou desejável é que fiquemos presos num estado de stress sem retornarmos para uma psicofisiologia que nos restaura ao nosso estado de homeostase básico - onde podemos viver com nosso organismo funcionando tranquilamente novamente.



Os estudos de Peter Levine, criador da abordagem Experiencia Somática, indicada para o tratamento de stress pós traumático, seguem um questionamento que surge na observação dos animais na natureza. Levine questiona como os animais selvagens, que rotineiramente passam por situações de perigo, de ameaça à sua sobrevivência, raramente ficam fixos em estados de stress (por exemplo, sem conseguir dormir) ou traumatizados.


Como descreve Levine, os animais mamíferos – incluindo nós, seres humanos - tem uma capacidade de autorregulação fisiológica natural que descarrega o stress quando já não mais necessário. Ou seja, assim como todos os mamíferos, temos um organismo que nos possibilita voltar ao estado de tranquilidade e de equilíbrio saudável, após entrarmos em estados de alto nível de alarme, de ativação ou de stress, estados estes de resposta de defesa (luta, fuga ou “congelamento”).


Faz parte de um mecanismo apropriado, por exemplo, um coelho selvagem entrar em estado de alerta e de stress diante da presença de um predador: o seu coração acelera, todo seu corpo e sistema nervoso entram em um estado de preparação se orientando para lutar/fugir ou se fingir de morto (imóvel/ congelamento), dependendo do meio de defesa que seria mais possível em cada das circunstancias onde ele se encontra. Este é um funcionamento natural do nosso sistema nervoso autônomo. E faz parte de seu modo de operação organísmica, se autorregular, completando suas ações de defesa, se descarregando até que volte a ficar num modo tranquilo, onde possa voltar a digerir sua comida, dormir e se relacionar se sentindo seguro.


Mas então, se temos a capacidade de autorregulação, o que acontece que ficamos com esta capacidade comprometida, nos mantendo em estados de stress ou elementos dele, que nos geram, por exemplo: insônia, síndromes de ansiedade, pânico ou colapsos nervosos?


Segundo Levine e neurocientistas que dialogam com essa teoria, como Stephen Porges e Bessel van der Kolk, a nossa capacidade autorreguladora fica frequentemente comprometida em nós humanos atuais pela inibição do nosso neocórtex - que é a parte do cérebro onde funciona a mente racional ou mais pensante - e também pela falta de relações ou circunstancias que nos tragam de volta à experiências de segurança. É através da possibilidade de um vínculo seguro e tranquilo que aprendemos e somos capazes de nos autorregular psicofisiologicamente. E o nosso processo de nos autorregularmos envolve nos permitirmos sustentar e descarregar a carga do stress, completando as respostas de defesa (luta/fuga/congelamento) e os processos fisiológicos ligados ao retorno do bem estar. Em outras palavras, precisamos estar num lugar seguro, numa relação de confiança, e nos permitirmos entregar ao movimento espontâneo psicofisiológico que nos autorregula - por vezes via choro, tremor, suor, calor ou bocejos, etc. - para sairmos do estado de stress. O que acontece é que muitas vezes, infelizmente, pode não haver lugar seguro, ou relação com o nível de confiança suficiente neste setor, ou mesmo conhecimento da mente pensante e cultural para permitir confiança nos meios de descargas emocionais e fisiológicas do nosso corpo. O tremor é reprimido, as lágrimas são vistas como sintomas de um problema, o sistema fica cada vez mais sobrecarregado e não consegue se aliviar e resolver o stress através dos próprios meios inatos de nosso processo organico.


Resolvendo o stress através da abordagem da Experiência Somática

O método da Experiência Somática tem como técnica fundamental a atenção na sensações corporais e um entendimento da necessidade de um processo pendular entre sensações restauradoras (e de apoio) e sensações difíceis ligadas a algum estado fixo no stress, ou num mecanismo de defesa suspenso e portanto não completado. Este processo pendular, facilitado pelo terapeuta treinado na Experiencia Somática, incentivado e acompanhado, funciona como um modo do organismo ir aos poucos podendo “dar conta”, organizando, digerindo, o que até então, por ter sido suspenso e se manter sobrecarregado, se encontrava rígido ou colapsado (pela exaustão no sistema). O terapeuta treinado em S.E. (Somatic Experiencing@), ajuda o cliente a prestar mais atenção em suas sensações e utilizar-se deste meio para se autorregular, e a “...ativação não regulada e previamente “trancada” no sistema neuromuscular e no sistema nervoso central pode ser liberada e finalizada, prevenindo e resolvendo os sintomas traumáticos”. (Peter Levine, Ph.D., 1997) Sobre o conceito de Trauma:


Geralmente pensamos em trauma como algo que foi ocasionado em algum cenário traumático grande, extremamente marcante, como uma catástrofe, guerra, etc ou num estupro, situação de extrema violência, abuso, tortura, etc. O que não deixa de ser verdade, mas, mais comumente, trauma também pode ser consequente de situações traumáticas não tão em evidência. Estudos sobre o trauma diferenciam o trauma entre:

- Trauma Isolado ou de choque – que acontece uma vez (ou no máximo 2 ou 3 vezes) ex. um quase afogamento, um acidente de carro, ou uma experiencia de abuso, ou causada por uma catástrofe, ou qualquer situação de grande ameaça à vida ou ao seu bem estar essencial;

- Trauma de Desenvolvimento - constituído de vários ou muitos eventos traumáticos ao longo do desenvolvimento infanto-juvenil, por exemplo: uma criança sendo abandonada, espancada ou abusada rotineiramente.


Num sentido amplo, podemos conceber que provavelmente quase todos nós, seres humanos, podemos ter algum trauma ou experiencia de stress não resolvida ao longo de nossas vidas. Seria irreal pensarmos que não, pois não vivemos num mundo perfeito, onde nunca sofremos qualquer tipo de abandono ou injustiça. Faz parte do mundo real que vivemos termos ciclos (ou gestalts) para serem completados. Enquanto vivos podemos sempre evoluir e superar nossos limites de experiencias vividas, se temos condições propícias para isso.

Freud definiu o trauma como “...uma ruptura na barreira protetora contra a (super) estimulação, acarretando sentimentos avassaladores de impotência”. Segundo a teoria da Experiência Somática entendemos essa “ruptura na barreira protetora” como a quebra de um limite psicofisiológico ocasionando a perda de segurança e da capacidade de resiliência - a flexibilidade de variar entre o stress e a tranquilidade de acordo com o melhor lidar face ao ambiente - no sistema nervoso.

Pelo olhar da Experiência Somática, O TRAUMA NÃO ESTÁ NO EVENTO HISTÓRICO, MAS SIM NO SISTEMA FISIOLÓGICO DO NOSSO CORPO. Portanto, é incluindo a atenção nas sensações do corpo, além das emoções, pensamentos e imagens, que podemos trabalhar o melhor lidar com o stress para que ele seja legitimado, entendido, completado e liberado de nossos sistemas organicamente, com apoio e respeito.

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